Curso Psicose & Arte: inter-relações

Independente da classe econômica, os doentes mentais foram, de diferentes formas em diferentes épocas, esmagados pelas sociedades. Viram-se por um período associados a figuras demoníacas, mas como eram ‘fracos’ de cabeça e incapazes de fazer pactos, foram destituídos das associações satânicas e ‘elevados’  à qualidade de inúteis; foram postos por suas famílias em embarcações conhecidas como “a Nau dos Loucos” e lançados aos rios, quando então não existiam manicômios; ganharam, com o ‘avanço’ da medicina, o cárcere, e a partir daí estiveram em exposição ao público, trancafiados em celas nos asilos para lunáticos.

No século XVIII os pintores despertaram para a loucura, e assim visitavam os asilos na intenção de bem retratá-la. Surpreenderam-se, porém com o potencial expressivo dos encarcerados; com desenhos feitos pelos próprios doentes nas paredes de suas selas. A partir deste gancho, passou a existir uma chance remota de mudar a sorte destas pessoas, ainda que o interesse inicial pela produção artística de insanos restringia-se aos trabalhos de alguns gênios da Pintura tidos como loucos. No século XIX estreitavam as inter-relações entre Arte e Psiquiatria e, num determinado momento destas articulações, brotou-se a esperança de melhor auxílio e recuperação de doentes mentais através do artesanato e de suas atividades plásticas, na época, implementadas e supervisionadas por médicos dentro de hospitais psiquiátricos.

O século XX iniciou-se com a Ciência e a Arte em discussão sobre as produções dos insanos. Os holofotes agora já atingiam as manifestações artísticas deles, dos institucionalizados, cujos trabalhos estariam em associação e comparação com artistas precursores da Arte Moderna. Fins diagnósticos, artísticos e fins terapêuticos explodiam nas rodas de comentários e avaliações, nas quais compareciam psiquiatras, psicanalistas, artistas, críticos de arte, filósofos. Foi então quando a Medicina parecia querer buscar respostas no universo afetivo dos psicóticos.

A trajetória das associações entre Arte e Loucura confirmou, portanto a capacidade de expressão e de criação do ser humano a despeito de uma personalidade desorganizada. Ou, vendo por outro ângulo, que a capacidade de criação e expressão do ser humano, por meio das artes, pode ser verificada quando sua imaginação ultrapassa os limites; quando não se comprime nos valores e verdades que criamos; quando se desenquadra, expande e delira.

Marcia Thereza S. Silva

Composição com vaso azul - Fernand Legér  Fernando Diniz - paciente expositor Isaac Liberato - paciente expositor  hemisfério cerebral Natureza Morta - Georges Braque Auto-retrato mole e cansalada na brasa - Salvador Dalí  Auto-retrato - Munch  O peixe dourado - Paul Klee Emygdio de Barros - paciente expositor Adelina Gomes - paciente expositora